Assaz Atroz

sábado, 26 de maio de 2018

88ª Feira do Livro de Lisboa

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88ª Feira do Livro de Lisboa

26.05.2018 | Fonte de informações: Pravda.ru

Neste ano mais 25 editoras estrearão suas participações na 88ª Feira do Livro de Lisboa. O número de pavilhões também será maior do que no ano passado, serão instalados mais oito novos pontos de exposição e venda de livros, totalizando 294 pavilhões, com a participação de 626 editoras e chancelas. O público terá 23 mil metros quadrados para circular em busca de seus autores preferidos, serão três mil a mais do que no ano passado.

O escritor cabo-verdiano Germano Almeida, vencedor da 30ª edição do Prêmio Camões, 2018, marcará presença, mantendo contato com os leitores e autografando seus livros, o que ocorrerá no último fim de semana. Destacamos Germano Almeida por ter sido ele, neste ano, o vencedor do mais importante prêmio para autor de língua portuguesa pelo conjunto da sua obra; entretanto, durante todo o evento, o público contará com a presença de muitos outros escritores nacionais e estrangeiros.   

Se você vai estar em Lisboa entre 25 de maio e 13 de junho, visite a 88ª Feira do Livro de Lisboa, que se realiza no Parque Eduardo VII.  A entrada é gratuita e os horários são os seguintes: de segunda-feira a quinta-feira das 12h30 às 22h00; sexta-feira das 12h30 às 00h00; sábados das 11h00 às 00h00; e domingos e feriados das 11h00 às 22h00. 

Aproveite e dê uma chegada ao pavilhão D37, o stand da Chiado Editora, que acaba de publicar o livro de contos "Fronteiras da Realidade - contos para meditar e rir... ou chorar", do escritor brasileiro Fernando Soares Campos, ativista em defesa da liberdade de expressão e das causas sociais, um autor engajado nas questões que envolvem garantias dos direitos fundamentais, direitos e deveres individuais e coletivos. Dono de grande acervo de obras literárias, muitos dos seus trabalhos estão publicados aqui no Portal Pravda.


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sábado, 12 de maio de 2018

O Imperador Magá no portão do Paraíso

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O Imperador Magá no portão do Paraíso

por Fernando Soares Campos
 
"Eu tenho o governador, os três senadores, 95% dos prefeitos, 30 dos 39 deputados federais, e me mostre alguém que tenha um poder como este onde faz política." 
Senador Antonio Carlos Magalhães, (1927-2007),
referindo-se à força política que possuía no Estado da Bahia. 
"Valor Econômico", 02/05/2000.
 
Morre o Imperador Magá, cujo nome de batismo foi Antônio Carlos, do clã dos Magalhães da Bahia de Todos os Santos e Pecadores Aliados, também conhecido como ACM ou Toninho Malvadeza, dono daquela capitania hereditária no Nordeste do Brasil. O falecido se apresenta nos portões do Paraíso, acreditando merecer o descanso eterno entre os justos. 
 
São Pedro consulta o Livro da Vida e acaba informando àquela alma senadora que os registros sobre a sua passagem na Terra não lhe são favoráveis. 
 
São Pedro: — Vossa ex-Excelência queira nos desculpar, mas aqui no Livro da Vida consta que o senhor cometeu seis dos sete pecados capitais: gula, luxúria, avareza, ira, soberba e vaidade, portanto não podemos admitir que uma pessoa assim possa usufruir os mesmos direitos que, por exemplo, Madre Teresa de Calcutá conquistou. Não dá para admiti-lo aqui entre os justos. Sorry. 
 
O Imperador Magá faz a sua defesa: 
 
Magá: — Como meu santo falou, cometi seis dos sete pecados capitais: gula, luxúria, avareza, ira, soberba e vaidade, mas não pequei pelo sétimo, a preguiça. Trabalhei feito um louco para obter meu primeiro mandato de deputado federal, labutei ainda mais para assumir a governança do meu Estado em três mandatos, mas nem mesmo o primeiro, uma concessão do governo militar, foi tão fácil de conseguir. Pra chegar ao Senado, Vossa Santidade sabe quanto suor temos que verter. Lá embaixo me ensinaram que quem trabalha merece descanso, assim sendo, na condição de secretário de Jota Cristo, Vossa Apostólica criatura conhece o Sermão da Montanha, e lá foi dito: "Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus"E, pelo muito que trabalhei, sei que sou merecedor de grande recompensa.
 
São Pedro: — É um caso a ser analisado minuciosamente, é um daqueles que a gente precisa consultar o Chefe, pois, apesar dessa sua virtude, a de ser um trabalhador incansável, aqui está escrito que o senhor apoiou uma mórbida ditadura militar, em que muitos inocentes foram torturados e até friamente assassinados.
 
Magá: — Não nego, pois não sou de negar o que realmente fiz. Posso ter apoiado essa tal ditadura, mas depois dela, já que não quiseram fazer de mim o chefe da nação brasileira, eu poderia ter mandado matar o presidente da República, mas não mandei; poderia ter mandado, como Hitler fez com outros povos, muitos milhões de nordestinos para os fornos crematórios, mas não mandei; poderia ter invadido o Piauí, como Bush no Iraque, mas não invadi; poderia ter transformado Sergipe em territórios ocupados pelo meu reino, mas não transformei... Todo mundo sabe que uma das maiores virtudes do ser humano está no fato de se esforçar e evitar o cometimento de atos que possam trazer dor e sofrimento ao seu semelhante. E assim eu me comportei na maioria das vezes em que sentia vontade de livrar alguém do inferno terrestre e mandá-lo para o inferno além-túmulo...
 
São Pedro (cofiando a barba): — Hum! Deixa eu dar mais uma espiadinha no Livro da Vida  — folheia algumas páginas e se detém no capítulo "Brasil", corre o dedo verificando os subitens "Bahia" e "Governos", até identificar novamente a biografia de ACM —. É, aqui só fala dos pecados cometidos, não cita aqueles que, por algum motivo que só Deus sabe, foram evitados ou impossibilitados de serem realizados...
 
ACM: — Então, com a vossa autoridade papal, é possível que já possa reconhecer que tenho cá os meus méritos...
 
São Pedro: — Devagar com o andor, que o santo é de barro! O nosso regulamento interno estabelece que, para ser admitido nesta sublime morada do Senhor, a alma pleiteante deve ter sido muito corajosa nos tempos que viveu na Terra...
 
ACM (rindo): — Se fosse só por isso, meu santo, a gente nem precisava ter jogado tanta conversa fora, pois todo mundo sabe que fui uma pessoa arrojada, fiz da coragem o lema de minha vida.
 
São Pedro: — Não duvido, aqui diz até que chegou esmurrar a mesa do gabinete do presidente da República, com ele sentado do outro lado.
 
ACM: — Mas isso aí não tem muito merecimento, pois o presidente era o FHC, um frouxo, que comia na minha mão. Eu já disse numa entrevista que, com ele, só não fiz sexo — gargalhando.
 
São Pedro: — Contenha-se, ex-Excelência Senatorial, guarde essas suas indiscretas afirmações para quando estiver conversando com seus parceiros demistas e tucanos.
 
ACM: — Como assim, venerável criatura?! Se vou ser admitido no Paraíso, provavelmente, a partir de agora, não terei mais oportunidade de estar cara a cara com nenhum daqueles corruptos! Por tudo que aqui discutimos, podemos concluir que tenho direito à entrada no Céu garantido pela Legislação Divina, que estabelece a conduta moral de ser humano na Terra...
 
São Pedro: — Pode ser...
 
ACM: — E, além de tudo que discutimos, uma coisa está chamando a minha atenção.
 
São Pedro: O quê? 
 
ACM: — Olha lá, meu santo — aponta para um velhinho que passeia pelos jardins do Éden. — Tá vendo aquele velhinho ali? 
 
O Divino Porteiro do Paraíso avista o velhinho passeando e tocando sua harpa romana. 
 
São Pedro: — Sim, é o Tancredo Neves. E daí? 
 
ACM: — E daí que ele foi advogado e político. Chegou até a ser eleito presidente da República por um colégio eleitoral. Então, se ele entrou, eu também tenho meus direitos. 
 
São Pedro (agora coçando a barba): — Eu já falei pra Jesus que a jurisprudência vai acabar transformando isso aqui num inferno! 
 

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segunda-feira, 5 de março de 2018

Crônicas da minha aldeia

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Crônicas da minha aldeia

por Fernando Soares Campos

"Fale de sua aldeia e estará falando do mundo" - Leon Tolstói

O próprio Tolstói também disse: “Quando as pessoas falam de forma muito elaborada e sofisticada, ou querem contar uma mentira ou querem admirar a si mesmas. Ninguém deve acreditar em tais pessoas. A fala boa é sempre clara, inteligente e compreendida por todos.” 

As histórias de batalhas e guerras, assim como as da política, das sociedades, das religiões, das revoluções, das civilizações, enfim, as histórias da humanidade, contadas pelos vencedores, têm quase sempre um falso brilho, em que se entremeiam ações supostamente heroicas com um aspirado moral superior e pretendida moral alicerçada em consagrados princípios éticos. Geralmente são redigidas de forma pretensamente "sofisticada", em linguagem rebuscada e até mesmo com argumentos inconclusivos, privando o leitor de uma clara compreensão, e este, por sua vez, costuma interpretar os textos sob suas ideologias e valores, num faz-de-conta que entendeu.

Porém, lendo o livro de crônicas "Santana: vivendo e contando histórias", do Dr. José Avelar Alécio, pediatra, com especialização em Saúde Pública, Medicina da Família e Homeopatia, lançado ano passado pelo SWA Instituto Educacional Ltda., reconhecemos, nas considerações de Tolstói, uma completa identificação com os escritos do autor, que se dedica a traçar alguns quadros históricos de nossa "aldeia", a cidade de Santana do Ipanema, localizada no Médio Sertão de Alagoas. Avelar o faz de forma "clara, inteligente e compreendida por todos", como bem recomenda o escritor russo.

"Fale de sua aldeia e estará falando do mundo", leia as crônicas de José Avelar e estará lendo histórias do comportamento humano em qualquer parte do Planeta. Com uma grande diferença em relação aos historiadores oficiais: Avelar não tem o objetivo de elevar personalidades à condição de heróis, "com um aspirado moral superior e pretendida moral alicerçada em consagrados princípios éticos". Entretanto ele reconhece naturalmente as contribuições de muitos santanenses para o progresso da cidade, nos âmbitos educacional, cultural, empresarial e, acima de tudo, moral, com exemplos de empreendedorismo social e luta reivindicatória. 

Os textos do médico-escritor José Avelar despertam o leitor... melhor, conduz o leitor para além da mera curiosidade. Pessoas como eu, nascidos e criados naquela cidade, testemunhas de muitos dos casos contatados no livro, em determinados momentos ficamos absortos, interrompemos a leitura e meditamos sobre nosso próprio papel na sociedade, seja na condição de pai, filho, amigo, estudante, trabalhador ou, como a maioria dos meus amigos, retirantes, ausentes, saudosos, aventureiros, dispersos pelo mundo afora.

No primeiro capítulo, intitulado "Santana dos anos sessenta e setenta", me detive na crônica "Os Cinemas de Santana". Tivemos três cinemas na cidade: O Cine Glória (o mais antigo), o Alvorada e o Cine Vanger. O primeiro ficava próximo à minha casa, no bairro do Monumento, o segundo, no centro da cidade, e o terceiro no bairro da Camoxinga. 

Avelar lembra que "O sinal sonoro que antecedia o início da sessão era aguardado por todos". Chamávamos de "prefixo". No Cine Glória tal prefixo era executado ao som de "Tema de Lara", um dos primeiros filmes exibidos ali, quando o cinema passou da propriedade de seu Domingos, para seu Tibúrcio Soares. Este foi o mais maravilhoso de todos os donos de cinema da cidade: bastava iniciar a sessão, cinema semi-lotado, a gente, guris na faixa de 10 a 12 anos, se esticava na bilheteria e pedia para entrar de graça. Ele nunca negava: fazia sinal para o porteiro e mandava entrar um por um. Em casa, geralmente a gente só recebia "verba" para uma sessão semanal; na maioria das vezes, para a matinê dos domingos.

Lembro-me de ter ido assistir a alguns filmes em companhia de minha mãe, mas o que mais me marcou foi "Diana, a caçadora". Em determinado momento, quando eu já estava ficando excitado com a imagem de uma mulher nua na tela (a atriz posando para um escultor), minha mãe estendeu o braço e tapou minha vista com a mão. 

Depois de pesquisa sobre esse filme no Google, encontrei o seguinte texto : "É sintomático que o primeiro artigo de Drummond tenha sido sobre um filme — Diana, a caçadora — em que discute a questão da moral no cinema, pois essa Diana aparece totalmente nua, tendo provocado severos protestos, tanto de jovens quanto de velhos, no Cinema Pathé, de Belo Horizonte". 

O moderníssimo Cine Alvorada, tela panorâmica, produções em CinemaScope, o fino do fino. Um empreendimento do generoso Tibúrcio Soares. Avelar lembra que nas paredes da sala de exibição existiam pinturas modernas retratando aspectos regionais. O pintor foi meu amigo e vizinho José Lima, Zezinho de dona Maria Ourives, irmão de Alberto "Benga", uma família de artistas.

Finalmente o Cine Vanger. Este não tinha lá uma boa reputação, pois funcionava numa garagem e apelava para exibições de filmes pornôs importados, os chamados "suecos". Acredito que, por isso mesmo, Avelar, que morava nas proximidades daquele cinema, deixa bem claro: "Nunca assisti a filme no Cine Vanger" (risos).

"Santana: vivendo e contando histórias", um livro de crônicas para santanenses ou qualquer outro habitante do Planeta, pois, segundo Leon Tolstói, "Fale de sua aldeia e estará falando do mundo".

Obrigado, Avelar, pela belíssima e importante obra.

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terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Brilhantes mentes sombrias do Majestoso Império de Absurdil

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Brilhantes mentes sombrias do Majestoso Império de Absurdil

por Fern
ando Soares Campos

Ali, precisamente em alguma área entre as regiões ártica e antártica, existia um reino do tipo que só conhecemos em contos de fada: o extraordinariamente vulgar Majestoso Império de Absurdil, governado, durante muitos séculos, pela dinastia Bundaleone. Ferdinando Bundaleone XXIV, o último imperador de Absurdil, era um monarca tão vaidoso que obrigou os seus súditos a reverenciá-Lo até nos pronomes oblíquos.

Sua Presunçosa Majestade parecia feliz com os resultados da política econômico-financeira do reino, seu fabuloso tesouro pessoal era invejado pelos soberanos de todo o mundo. Contudo Sua Faustuosa Majestade andava com o seu augusto saco cheio da monótona rotina: desvirginar as donzelas debutantes, assistir a enforcamento de ladrão de galinha, praticar tiro ao alvo em escravos e alimentar os crocodilos do fosso do castelo com bebês recém-nascidos, como forma de controle da natalidade.

Quase todos os dias, Bundaleone visitava o Museu Imperial, mesmo que fosse apenas para uma rápida passagem pelo setor Cabeças dos Traidores, onde Sua Macabra Majestade apreciava os rostos aterrorizados de inimigos decapitados — as cabeças eram mergulhadas em uma solução conservante e exibidas em vasos cristalinos.

Enfadado com a mesmice do seu dia-a-dia, Sua Entediada Majestade mandou vir à Corte o seu ministro da Ignorância e Barbaria e ordenou que este lhe apresentasse um eficiente programa de manutenção do analfabetismo, pois um relatório do Serviço Absurdileiro de Informações e Delação Obrigatória (Sabido) indicava suspeitas de que alguns trabalhadores estavam aprendendo a ler e escrever. O ministro retirou-se garantindo à Sua Estúpida Majestade que iria intensificar todos os esforços do seu ministério para elaborar o mais eficiente plano de incremento da ignorância e barbaria de todos os tempos, em Absurdil.

Em seguida, Bundaleone convocou o seu ministro das Desinformações. Deste, ele exigiu que fossem tomadas providências para conter a queda de audiência do único canal de televisão do reino, a estatal TV Cubo. Relatório ultra-secreto do Sabido informava à Sua Esclarecida Majestade que, nas segundas-feiras, apenas 99,99% dos televisores permaneciam ligados até a meia-noite. O ministro tranquilizou Sua Preocupada Majestade, garantindo-lhe que apresentaria um infalível plano, desenvolvido em convênio com o Ministério da Aculturação, para obrigar todos os súditos a assistirem à programação da emissora estatal, durante todo o tempo em que não estivessem trabalhando no corte e moagem de cana, a monocultura do vulgarmente extraordinário Majestoso Império de Absurdil.

Finalmente, Sua Injustiçosa Majestade fez vir à sua presença o ministro da Injustiça. A este Bundaleone cobrou mais empenho no desrespeito aos direitos humanos; do contrário, ele próprio, o ministro, seria também chicoteado em praça pública, como qualquer dos súditos que eram mensalmente punidos por terem nascido miseráveis e não conseguirem alcançar o status de pobre ao se tornarem adultos, conforme determinava a lei; feito que qualquer trabalhador poderia facilmente realizar, bastando apenas triplicar o seu volume diário de corte de cana, durante a mesma jornada de trabalho a que estava submetido desde os cinco anos de idade: 20 horas diárias.

No dia seguinte os maquiavélicos ministros compareceram à Corte com os mais sórdidos planos. Os programas propostos para o incremento da ignorância e barbaria, desinformação e violação dos direitos humanos eram tão repulsivos que encantaram Sua Repugnante Majestade Bundaleone XXIV.

— Jamais, em nenhum outro reino, foi implementado um plano tão abominável! — festejou Sua Execrável Majestade. — A ignorância e a injustiça finalmente triunfarão para sempre no meu reino! — sentenciou.

Emocionado, Bundaleone observou seus desprezíveis assessores e sentiu a necessidade de recompensá-los pelos seus esforços. Súbito, brotou uma brilhante idéia sombria da saudável mente psicótica de Sua Mórbida Majestade. Assim, Ferdinando Bundaleone XXIV informou aos seus sabujos auxiliares que lhes prestaria uma homenagem sem precedente na História do Majestoso Império de Absurdil.

Os ministros regozijaram-se com o vergonhoso reconhecimento do soberano desavergonhado e, num gesto coreograficamente ensaiado, ajoelharam-se e, como mandava a tradição, beijaram os pés do escroto monarca, antecipadamente agradecendo-lhe a homenagem que lhes seria prestada.

Bundaleone mandou construir um suntuoso salão anexo ao Museu Imperial. Para a inauguração deste novo espaço cultural, Sua Diabólica Majestade mandou decapitar os três ministros autores dos eficientes planos de incremento da ignorância e barbaria, desinformação e injustiça. As cabeças dos homenageados, mergulhadas em solução conservante, acondicionadas em enormes vasos cristalinos, inauguraram a seção Brilhantes Mentes Sombrias do Majestoso Império de Absurdil.

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Moral indecorosa: Em alguns casos, é prudente mandar representantes a eventos em que certos governantes pretendam homenageá-lo. 


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sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Tiros pela culatra

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Tiros pela culatra

por Fernando Soares Campos 

Portal do jornal russo Pravda, versão em português - 03.11.2017

Trecho:

A mulher entrou na sala e estranhou o comportamento do marido ao telefone. Ele aparentava estar entre pasmo e eufórico, caminhava em círculo e repetia a pequenos intervalos: "Não! Não! Nããão!". Ela fez sinais, acenou, piscou, sussurrou: "Quem é?", "O que está acontecendo?". Ele apenas repetia: "Não! Não! Nããão!". A mulher impacientou-se, bateu palmas para chamar sua atenção. Tentou umas batidinhas com o pé. Nada, quer dizer, "Não!", era só o que ele dizia ao seu interlocutor.

Ela desistiu, resolveu esperar sentada. Ele mudou sua monossilábica comunicação para "Sim! Sim! Sei!". Impaciente, ela levantou-se bruscamente e perguntou: "Afinal, é sim ou não?!". Ele colocou o indicador entre os lábios e fez "psiu!". Ela já estava disposta a lhe tomar o telefone e perguntar ao outro o que estava acontecendo. Ele agradeceu pelas informações e despediu-se. 
- E agora dá pra você me explicar o que está acontecendo?! - exigiu ela.
- Você não vai acreditar, querida!
- Vai logo, desembucha, homem! Que aconteceu de tão grave?!

LEIA MAIS AQUI

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domingo, 29 de outubro de 2017

Fábula: "O pintassilva aquilino e o urubu-atucanado travestido de condor"

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"O pintassilva aquilino e o urubu-atucanado travestido de condor" 

por Fernando Soares Campos 

Portal do jornal russo Pravda, versão em português 
CPLP » Brasil - 29.10.2017

Trecho:

Naquela época, o Reino Unido do Pau-Brasilis vivia sob o governo de um urubu-atucanado travestido de condor. A turba depôs o urubu-atucanado que nada tinha de condor, mas, sim, condottiere, e o pintassilva-aquilino assumiu os destinos do reino.

O aventureiro urubu-atucanado havia deixado a nação no mais lamentável estado de penúria, um miserê nunca antes experimentado pelos reino-unidenses, também conhecidos por paus-brasileiros. Durante o reinado do urubu-atucanado, o Reino Unido do Pau-Brasilis tornara-se submisso aos ditames da Fauna Mamífera Internacional (FMI) e empobrecido pela pilhagem a que os autóctones comparsas do monarca entreguista se aventuraram durante muitos anos, saqueando os cofres públicos e vendendo quase todo o patrimônio do Reino a preço de banana na hora da xepa.

Em quase uma década de reinado, o pintassilva-aquilino havia conseguido resgatar grande parte dos pardais, rolinhas, bem-ti-vis, sabiás e tantas outras espécies que, durante séculos, de geração a geração, viviam em extrema pobreza, verdadeiramente escravizados. Toda a fauna miúda, que nunca antes na História havia tido a atenção dos governantes, agora frequentava universidades, escolas técnicas, tirava férias e já nem precisava se desgastar batendo asas para percorrer longos percursos, pois passou a viajar confortavelmente de avião, comprava em shopping e dormia sob ar condicionado.


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O abismo brasileiro - A concentração de riqueza aprofunda a ferida nacional
por Guilherme Boulos [*]
CPLP » Brasil - 25.10.2017
Trecho:
Os números apresentados pelo estudo A Distância Que Nos Une, da Oxfam, são chocantes: a riqueza dos seis maiores bilionários brasileiros equivale à dos 100 milhões mais pobres. Considerando o 0,1% mais rico, seu rendimento [NR] em um mês é o mesmo que um trabalhador com ganho de um salário mínimo receberia em 19 anos. Difícil explicar pela meritocracia uma desigualdade tão gritante.


domingo, 24 de setembro de 2017

Golpear ou não golpear, eis a questão



Golpear ou não golpear, eis a questão
 
por Fernando Soares Campos
 
Com esta imprensa que temos aí, acontecem coisas assim: repórteres entrevistam alguns generais e os consultam sobre as possibilidades de um iminente golpe de estado, perguntam aos militares de alta patente se existe algum golpe em andamento nos quarteis, como se algum conspirador admitisse as intenções de golpear. Não entro no mérito se existe ou não, no momento, algum general conspirando sistematicamente no Brasil, refiro-me apenas à “ingenuidade” de certos profissionais de imprensa. 
 
Neste momento em que se dissemina notícias sobre as possibilidades de um golpe militar em nosso país, a imprensa deveria investigar, com isenção de interesses pessoais ou de classe, até onde a realidade revela a verdade dos fatos. Eu disse investigar?! Ainda existe aquele velho e eficiente jornalismo investigativo em alguma parte do mundo?

Conspiração contra um governo (qualquer que seja) é uma constante, é uma atitude comum a oposições de qualquer orientação político-ideológica. Todos conspiram, uns mais desleais que outros, mas conspirar é muito comum entre adversários. Às vezes, até mesmo dentro dos próprios grupos politicamente alinhados.

Golpear um governo não depende apenas de "clima" ou "ambiente" político; mas, acima de tudo, de oportunidade. E essa oportunidade a direita-sectária brasileira está criando, com o apoio da mídia golpista, pois quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Lembram-se? Os tempos são outros, os métodos talvez também sejam outros, porém não menos violentos.

Milhares de pessoas já tiveram suas vidas devastadas pelo terror de um golpe de estado porque não acreditavam que estava sendo engendrado golpe militar em seus países, até chamavam de paranoico quem insinuasse tal possibilidade. "Teoria da conspiração". 
 
Duvido que, na manhã de 1º de abril de 1964, os militantes de esquerda e a população brasileira em geral acreditassem que, naquele mesmo dia, os tanques estariam nas ruas.

Eu perguntaria aos companheiros chilenos se eles poderiam nos relatar como se sentiam nas vésperas daquele 11 de setembro de 1973, quando bombardearam o Palácio La Moneda e se livraram do presidente Salvador Allende, que dizem ter-se suicidado. Se a população havia sido notificada sobre o “evento”.
 
E os companheiros argentinos, por acaso, receberam algum boletim informativo com uma nota do tipo "Amanhã cedo vamos golpear"? Como foi o primeiro dia de matança aí na Argentina, hein?! Como estava o clima naquele dia? Muito frio? Chuvoso? Nevasca? Calor? 
 
A imprensa e os políticos sob um golpe militar nos dias de hoje

O AI-5 do general-ditador Costa e Silva, em 1968, impôs o fechamento do Congresso Nacional e censura à imprensa. Estabeleceu de vez a ditadura que começou em 64. Porém, nos dias de hoje, com a imprensa e o Congresso que temos aí, não precisariam cassar mandatos nem impor censura à imprensa. Pra quê?! Eles já aprenderam a autocensurar-se, a obedecer, a mancomunar-se. 
 
Os atos de exceção, hoje, se limitariam a suspender o processo eleitoral através do sufrágio universal e estabelecer a nomeação de governadores e uma cota senadores biônicos. Mas o principal, o seu mais importante artigo seria aquele que determinaria eleição indireta para a Presidência da República. Aliás, este seria o verdadeiro motivo de um golpe militar sobre o golpe legislativo de 2016.
 
Os golpistas já sentiram que é praticamente impossível manter Lula preso com o país sob regime de liberdade de expressão e manifestação popular. Haveria um clima de perturbação permanente, as principais estradas do País seriam fechadas diariamente em diversos trechos. Paralisaríamos os setores produtivos da nação. Portanto, só lhes resta aplicar o golpe fatal, o golpe de misericórdia sobre o que nos resta em nome de um cambaleante Estado democrático de direito.
 
Agora imagine o seguinte cenário: Lula lá no cadeião de Curitiba, milhares de militantes petistas e esquerdistas em geral distribuídos entre presídios, manicômios e cemitérios clandestinos; outro tanto exilado pelo mundo afora. Imaginou?! Então, leia o jornalista Fernando Brito, editor do site Tijolaço, e desimagine, desencasquete. Ele não admite que exista, atualmente, a possibilidade de um golpe militar no Brasil devido à importância que o nosso país representa no cenário mundial. 
 
Vejamos esse trecho de um dos seus artigos em que ele diz que até se nega a "ficar discutindo a possibilidade de um golpe militar como sendo o maior escândalo de nossos tempos" e expõe suas razões:

"A primeira é que são remotíssimas as possibilidades de se instaurar um governo militar num país da importância mundial do Brasil, mesmo que diariamente o governo faça tudo  para apequená-lo. É evidente que qualquer pessoa dotada de algum juízo geopolítico sabe que a conjuntura mundial, hoje, ao contrário dos tempos da “Guerra Fria”, o impede. E, mesmo que haja uma aventura insana, é algo que não se sustenta politicamente.

"Governo militar, hoje,  é coisa para ex-capitães aloprados, jovens imbecilizados e senhores saudosistas. Militar com comando e responsabilidade não acredita nisso, nem vai para aventuras que não sabe onde e como terminam. É coisa para aspirantes e tenentes bolsonaristas ou general em campanha prévia para o Clube Militar, onde vai curtir sua passagem para a reserva e se pode falar sem agir. Há quem fale em outras aventuras eleitorais: seu direito e uma falta de juízo sem tamanho.

"A segunda razão é que a ditadura que me preocupa é a que já vivemos: a judicial.

"Esta, sim, não é um perigo, é uma realidade.

"Pior, é uma ditadura sem comando, porque o que seria seu “Estado Maior”, o STF, tornou-se uma espécie de “escolinha do Professor Raimundo” onde estamos debatendo as questões da “mais alta irrelevância” numa profusão de vaidades. Agora mesmo está julgando a questão do ensino religioso confessional, sem um mínimo de responsabilidade em ver que, neste momento, o tema é gasolina para os incendiários do ódio.

"Se falta comando, porém, tenentes superpoderosos não são escassos neste diktat da toga.

"Além do tenente master Moro esporulam outros que se apresentam como carrascos da corrupção, com especial predileção pela esquerda, ou até, na falta disto, para obterem seu brilhareco, dos gays, das meninas que perdem a virgindade, e tudo o mais que possa atrair a atenção pública, enquanto o governo postiço vai entregando tudo o que resta de patrimônio e esperanças deste país.

"Desculpem, mas eu não entro na gritaria contra a “ditadura militar” – que não desejo, óbvio, e creio, por tudo o que disse ao início, não virá – para fazer disto mais uma marola no tsunami punitivista com o medo do “prendam todos, senão prendemos vocês”.

"É mais água no moinho do autoritarismo não-militar, mas da meganhagem que se tornou o sistema judicial e parajudicial."(Fernando Brito, no artigo "O mais perigoso para a democracia é o Mourão ou o “Morão”? - TIJOLAÇO - 22/09/2017)"

Mas, em verdade, vos digo: se capitularmos diante de frustrados militares golpistas, e o Brasil sofrer mais um golpe de estado arquitetado no Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, e perpetrado pelas facções militares colonizadas e submissas aos ditames imperialistas dos ianques, pois bem (bem mal), desta vez não sairemos do jugo ditatorial nem tão cedo. Talvez, democracia nunca mais! Seria o "1984" de George Orwell definitivamente instalado para a purgação da nossa degenerada existência. Seria o definitivo atestado de que não somos merecedores deste paraíso terrestre chamado Brasil, pois estamos transformando-o num verdadeiro inferno.

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